A Neuropsicologia e a Esclerose Múltipla

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A Neuropsicologia e a Esclerose Múltipla

COGNIÇÃO: ato ou processo de conhecer. A psicologia cognitiva estuda os processos de aprendizagem e de aquisição do conhecimento. Neuropsicologia, para Luria (1981), é a ciência que tem como objetivo específico investigar o papel dos sistemas cerebrais individuais nas formas complexas da atividade mental. “Ciência dedicada a estudar a expressão comportamental das disfunções cerebrais” (AMBRÓZIO, RIECHI 2005).

A Neuropsicologia ocupa-se em estudar a complexa organização cerebral e suas relações com o comportamento e cognição, tanto em quadros de doença quanto no desenvolvimento normal, e é definida como a ciência aplicada que estuda a expressão comportamental das disfunções cerebrais.

O neuropsicólogo tem por objetivo correlacionar as alterações observadas no comportamento do paciente com as possíveis áreas cerebrais envolvidas, realizando, essencialmente, um trabalho de investigação clínica que utiliza testes e exercícios neuropsicológicos. A avaliação neuropsicológica é destinada a identificar, obter e proporcionar dados e informações sobre o funcionamento mental dos sujeitos.

IMPORTÂNCIA DA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA

  • Investigar e quantificar a existência de alterações das funções cognitivas, buscando diagnóstico ou detecção precoce de sintomas;
  • A avaliação e a reavaliação para auxiliar nos tratamentos cirúrgicos, medicamentosos e de reabilitação;
  • A avaliação direcionada para os aspectos legais, determinando informações sobre condições ocupacionais ou incapacidades mentais de sujeitos que sofreram alguma lesão cerebral ou doença que comprometa o sistema nervoso central.

ATUAÇÃO DO NEUROPSICÓLOGO

A atuação do neuropsicólogo clínico na avaliação neuropsicológica é no processo de investigação da atenção, percepção, memória, linguagem e raciocínio (funções cognitivas) e do comportamento, utilizando técnicas de entrevista e exames quantitativos e qualitativos.

AS PRINCIPAIS RAZÕES PARA SOLICITAR UMA AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA

Auxílio diagnóstico: a questão diagnóstica na maioria das vezes tem como finalidade saber qual seria o problema do paciente e de que maneira se apresenta. Sendo assim, é necessário que seja feito um diagnóstico diferencial entre quadros que têm manifestações muito semelhantes ou passíveis de serem confundidas.

Prognóstico: com o diagnóstico feito, consiste em estabelecer o curso da evolução e o impacto que a desordem terá em longo prazo. Este tipo de previsão tem a ver com a própria patologia ou condição de base da doença ou transtorno (quando há lesão, com o lugar, o tamanho e lado no qual se encontra e, nesse caso, devem ser considerados os efeitos à distância que elas provocam).

Orientação para o tratamento: ao estabelecer a relação entre o comportamento e se existe lesão cerebral ou patologia, a avaliação neuropsicológica não só permeia áreas de disfunção, mas também estabelece as categorias das desordens em estudo. Com isso pode colaborar para a escolha ou para mudanças nos tratamentos medicamentosos ou outros.

Auxílio para organizar a melhor forma para reabilitação, a avaliação neuropsicológica permeia quais são as forças e as fraquezas cognitivas, fornecendo assim uma espécie de mapa para nortear quais funções devem ser reforçadas ou substituídas por outras.

Auxiliar a tomada de decisão que os profissionais da área do direito precisam fazer em uma determinada questão legal.

NEUROPSICOLOGIA E ESCLEROSE MÚLTIPLA

As questões cognitivas e afetivo-emocionais na EM apresentam um impacto importante sobre o bem a qualidade de vida do portador de varias maneiras: adaptação familiar, profissional, social e outros que são essenciais na qualidade de vida. Os déficits cognitivos na EM podem mesmo preceder ao diagnóstico da doença, pois esse déficit está intimamente ligado à doença (processo inflamatório e degenerativo). As alterações cognitivas são bastante comuns na EM, estando presentes em 40% a 70% dos pacientes, já presentes em 25% dos casos em fase inicial da doença.

Os problemas mais comuns são as dificuldades na atenção, memória e a redução da rapidez e eficiência do processamento de informações. O déficit da atenção sustentada, que é a capacidade de concentração em determinada atividade, principalmente naquelas que demandam dividir a atenção com diferentes tarefas, ações ou informações ao mesmo tempo também são bastante comuns. A memória de curto-prazo (ou seja, memória operacional, que trabalha com informações simultâneas, na faixa de segundos), como também a memória a longo-prazo (aprendizado de informações e recordação de fatos acontecidos vários minutos, horas ou dias antes) também apresentam déficits.

A diminuição na velocidade no processamento de informações é o déficit cognitivo mais comum na EM, os déficits de atenção sustentada e alternada, da memória operacional e da rapidez de processamento de informações, diminuem significativamente o funcionamento executivo do paciente, até mesmo em tarefas básicas do cotidiano.

A avaliação neuropsicológica na EM é um método que tem por objetivo investigar as funções cognitivas do portador, buscando diagnosticar previamente os distúrbios de atenção, memória e funções executivas, além de alterações cognitivas específicas como capacidade de raciocínio, cálculo, abstração, planejamento, e seus diagnósticos diferenciais.

É bastante comum em pacientes com EM, observar a ansiedade e inquietações quando suas funções cognitivas começam a apresentar falhas. Entretanto, estudos atualizados mostram o quanto uma avaliação neuropsicológica realizada nos primeiros sintomas é necessária para uma melhor recuperação das funções atingidas.

A reabilitação cognitiva é um processo terapêutico que tem como objetivorecuperar ou estimular as habilidades funcionais e cognitivas do sujeito, ou seja, recuperar seus instrumentos cognitivos.
Também é de suma importância visitas ao neurologista e atendimento multidisciplinar para que possamos estabelecer estratégias para a reabilitação cognitiva. Profissionais como neuropsicólogo, psicólogo, fonoaudiólogo, fisioterapeuta, nutricionista e terapeutas ocupacionais, envolvidos ao atendimento específico do problema, têm proporcionado resultados positivos na reabilitação dos pacientes, melhorando sua saúde física e mental. A reabilitação cognitiva ajuda não só os portadores, mas também familiares e cuidadores.

A EM é uma doença envolta em muitos aspectos neuroquímicos e imunológicos desconhecidos. Além disso, é necessário conscientização do paciente e da família em buscar uma superação das funções comprometidas, evitando o agravamento da doença.

Para uma boa cognição: alimentação saudável, sem gorduras e açúcares; dormir bem, o sono revigora as energias.

Janaína Noal

Psicóloga,  especialista em Neuropsicologia.

Presidente da APEMSMAR